Eu
me despedi, sem lágrimas, sem falsa moral, sem esboçar nenhuma rigidez nas
palavras, senti-me como se estivesse chegando de uma viagem longa, sim,
despedir-se de um amor e seguir, é como a chegada de uma viagem longa, daquelas
que se viveu tanto o lugar explorado, que se deixou tanta pegada no local, que
se viveu o máximo que se poderia viver e assim como todas as viagens, um
pouquinho de imprevistos. A cada palavra lançada, com consolos e pequenas
alterações de vozes, lembrava-se uma peça de roupa retirada da grande mala, pois
arrumar e desfazer as malas para esta criatura aqui, é a parte mais chata e
trabalhosa de uma chegada ou de uma partida, sempre esquecemos algo, e sempre
carregamos bagagem demais... Desfazer as malas é como arrancar cada caminho
percorrido por nós, assim nos desfazemos e fazemos com os amores, dizer “Até
Logo”, é como desfazer malas e arruma-las de novo, é trabalhoso, é árduo, e não
menos corajoso. O meu desfazer de malas, foi tranquilo, um pouco doloroso e um
tanto corajoso, é como se minha viagem tivesse sido tão gratificante que não houvesse
do que se lamentar e nem do que se glorificar, apenas rir, lembrar e seguir, e
pensar que outras viagens virão, umas mais rápidas do que as outras, outras bem
mais cheias de imprevistos e não menos interessantes. O segredo de tais
desapegos é não olhar pra trás, não calcular o prejuízo e nem a desesperar-se com
a bagunça que ficou na casa. Chegue, feche a porta, desfaça suas malas e
planeje outra viagem, de preferência sozinha.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
Aos cantores desconhecidos
Indagações de
todos os amantes, saudações a todos aqueles que também não sabem a quê e para
quê vieram... Hoje não há nenhuma venda em meus olhos, ou pelo menos, nenhuma
que eu queira vestir. Explicita e louca como sempre, bebi todos os licores que
se pode beber, amarguei bocas incansáveis de esperar, abracei quem eu odiei,
fui hipócrita por instantes, lembrei-me de quem não deveria lembrar, fui
inconsequente o quanto pude, dancei, cantei e esmurrei paredes. Agi de acordo
com minha imoral idade, sofri por pouca merda, cantei músicas de cantores
desconhecidos, cantei suas infelizes músicas... Liguei quando não tive vontade,
senti sua falta mesmo você não merecendo, abracei corpos quentes e
confortáveis, enchi linguiça em um depoimento, fui falsa comigo mesma, eu li
Lorca, bati no oco, sambei no molhado, me vesti de vermelho, perdi dentes ao
sentir saudades, ganhei três dentes ao matá-las, lembrei-me do namorado,
esqueci-o no mesmo instante, e um beijo a você que pensa que isto define tudo.
sábado, 9 de junho de 2012
"Passa nuvem negra larga o dia e vê se leva o mal que me arrasou"
“Tá difícil
ser eu, sem reclamar de tudo”, esta é a frase do dia, dia este que por mais
dolorido que seja, é o que me faz bem melhor por hoje, chega a ser gostoso
pensar e sentir tudo isso. Acordei ouvindo esta maravilha que é “Nuvem Negra”.
Lembro-me da primeira vez que ouvi esta música, e lembrar-me disto é o que
alivia a minha tensão em sentir saudade. Não é o melhor dos sentimentos, mas
tem lá suas qualidades, mas voltando ao fiel motivo deste texto... Eis aqui eu,
sentindo saudades do que não me cabe mais, do que me foge ao controle. O doce
em sentir esta maldita e linda saudade está em uma das belas tardes que passava,
ouvindo o belíssimo som de um violão velho, talvez o melhor dos sons, lembro-me
que este era um daqueles dias em que se acorda com a cara amarrada, dia
cansativo e estressante, e nestas tardes quentes desta minha terrinha, o que se
melhor poderia fazer, era sentar ao redor da mesinha do lado da janela do
apartamento, sentindo o vento quente que passava pela mesma, comendo um prato
de macarronada feito com muito amor e carinho, lembro-me também que sempre
depois do almoço, me deitava numa rede e com o pé empurrava a parede para a
rede ganhar impulso e balançar, e que havia sempre alguém a velar meus vinte
minutinhos de sono, era sempre um assobio, e muitas vezes o computador a rolar
um jazz, um blues, ou um instrumental, acordava-se sempre com um sussurro ao pé
do ouvido ou com beijos estalantes na nuca, em fim, neste dia não foi
diferente, fiz tudo isto, mas reclamei do dia cansativo e estressante o tempo
todo, terminei meu ritual e adormeci lentamente no embalo da rede, assim mesmo,
que nem criança, no finalzinho da tarde, despertei com um sussurro e uma
mordidinha na nuca, ao abrir os olhos fiquei cinco minutinhos criando coragem
para levantar, ouvi uma melodia triste e bonita ao fundo, vinha do som da sala,
levantei-me e saí do quarto meio que cambaleando e com um mau humor de dar nos
nervos, encostei-me na parede da sala e o que vi e ouvi foi muito bonito, ouvi esta
musica e vi um homem encostado na parece com um violão, assobiando a música
toda, talvez uma das cenas mais interessantes que já presenciei, simples e
bonito, analisei toda a letra da música e senti uma pontadinha em meu peito
como se fosse um alivio e uma dor ao mesmo tempo. A música era para mim, tinha
tudo a ver com meu mau humor, com meu cansaço e com meu pessimismo, mas havia
muito mais coisas embutidas na mesma musica, era com uma previsão para todo o abandono
que estava por vir. Quando a música acabou eu ri e disse:
- Que música
linda, com se chama?
-Se chama Nuvem
Negra!
Ouvi a música
umas dez vezes no mesmo dia, meu cansaço e mau humor foram pra o beleleu,
sentei-me no chão na porta da cozinha enquanto alguém cozinhava, bati um papo
legal e depois fui dormir, mas até hoje, para cada dia ruim e estressante, eu
ouço essa música e sinto lá no fundo um tiquinho de dor, misturada com alivio,
sensação esta que me remete ao que é bom e ruim, música esta que para cada
incerteza de dias assim, será a alegria e a tristeza de se sentir saudade.
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