quinta-feira, 28 de junho de 2012

FAZENDO E DESFAZENDO MALAS


Eu me despedi, sem lágrimas, sem falsa moral, sem esboçar nenhuma rigidez nas palavras, senti-me como se estivesse chegando de uma viagem longa, sim, despedir-se de um amor e seguir, é como a chegada de uma viagem longa, daquelas que se viveu tanto o lugar explorado, que se deixou tanta pegada no local, que se viveu o máximo que se poderia viver e assim como todas as viagens, um pouquinho de imprevistos. A cada palavra lançada, com consolos e pequenas alterações de vozes, lembrava-se uma peça de roupa retirada da grande mala, pois arrumar e desfazer as malas para esta criatura aqui, é a parte mais chata e trabalhosa de uma chegada ou de uma partida, sempre esquecemos algo, e sempre carregamos bagagem demais... Desfazer as malas é como arrancar cada caminho percorrido por nós, assim nos desfazemos e fazemos com os amores, dizer “Até Logo”, é como desfazer malas e arruma-las de novo, é trabalhoso, é árduo, e não menos corajoso. O meu desfazer de malas, foi tranquilo, um pouco doloroso e um tanto corajoso, é como se minha viagem tivesse sido tão gratificante que não houvesse do que se lamentar e nem do que se glorificar, apenas rir, lembrar e seguir, e pensar que outras viagens virão, umas mais rápidas do que as outras, outras bem mais cheias de imprevistos e não menos interessantes. O segredo de tais desapegos é não olhar pra trás, não calcular o prejuízo e nem a desesperar-se com a bagunça que ficou na casa. Chegue, feche a porta, desfaça suas malas e planeje outra viagem, de preferência sozinha.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Aos cantores desconhecidos


Indagações de todos os amantes, saudações a todos aqueles que também não sabem a quê e para quê vieram... Hoje não há nenhuma venda em meus olhos, ou pelo menos, nenhuma que eu queira vestir. Explicita e louca como sempre, bebi todos os licores que se pode beber, amarguei bocas incansáveis de esperar, abracei quem eu odiei, fui hipócrita por instantes, lembrei-me de quem não deveria lembrar, fui inconsequente o quanto pude, dancei, cantei e esmurrei paredes. Agi de acordo com minha imoral idade, sofri por pouca merda, cantei músicas de cantores desconhecidos, cantei suas infelizes músicas... Liguei quando não tive vontade, senti sua falta mesmo você não merecendo, abracei corpos quentes e confortáveis, enchi linguiça em um depoimento, fui falsa comigo mesma, eu li Lorca, bati no oco, sambei no molhado, me vesti de vermelho, perdi dentes ao sentir saudades, ganhei três dentes ao matá-las, lembrei-me do namorado, esqueci-o no mesmo instante, e um beijo a você que pensa que isto define tudo.

sábado, 9 de junho de 2012

"Passa nuvem negra larga o dia e vê se leva o mal que me arrasou"


“Tá difícil ser eu, sem reclamar de tudo”, esta é a frase do dia, dia este que por mais dolorido que seja, é o que me faz bem melhor por hoje, chega a ser gostoso pensar e sentir tudo isso. Acordei ouvindo esta maravilha que é “Nuvem Negra”. Lembro-me da primeira vez que ouvi esta música, e lembrar-me disto é o que alivia a minha tensão em sentir saudade. Não é o melhor dos sentimentos, mas tem lá suas qualidades, mas voltando ao fiel motivo deste texto... Eis aqui eu, sentindo saudades do que não me cabe mais, do que me foge ao controle. O doce em sentir esta maldita e linda saudade está em uma das belas tardes que passava, ouvindo o belíssimo som de um violão velho, talvez o melhor dos sons, lembro-me que este era um daqueles dias em que se acorda com a cara amarrada, dia cansativo e estressante, e nestas tardes quentes desta minha terrinha, o que se melhor poderia fazer, era sentar ao redor da mesinha do lado da janela do apartamento, sentindo o vento quente que passava pela mesma, comendo um prato de macarronada feito com muito amor e carinho, lembro-me também que sempre depois do almoço, me deitava numa rede e com o pé empurrava a parede para a rede ganhar impulso e balançar, e que havia sempre alguém a velar meus vinte minutinhos de sono, era sempre um assobio, e muitas vezes o computador a rolar um jazz, um blues, ou um instrumental, acordava-se sempre com um sussurro ao pé do ouvido ou com beijos estalantes na nuca, em fim, neste dia não foi diferente, fiz tudo isto, mas reclamei do dia cansativo e estressante o tempo todo, terminei meu ritual e adormeci lentamente no embalo da rede, assim mesmo, que nem criança, no finalzinho da tarde, despertei com um sussurro e uma mordidinha na nuca, ao abrir os olhos fiquei cinco minutinhos criando coragem para levantar, ouvi uma melodia triste e bonita ao fundo, vinha do som da sala, levantei-me e saí do quarto meio que cambaleando e com um mau humor de dar nos nervos, encostei-me na parede da sala e o que vi e ouvi foi muito bonito, ouvi esta musica e vi um homem encostado na parece com um violão, assobiando a música toda, talvez uma das cenas mais interessantes que já presenciei, simples e bonito, analisei toda a letra da música e senti uma pontadinha em meu peito como se fosse um alivio e uma dor ao mesmo tempo. A música era para mim, tinha tudo a ver com meu mau humor, com meu cansaço e com meu pessimismo, mas havia muito mais coisas embutidas na mesma musica, era com uma previsão para todo o abandono que estava por vir. Quando a música acabou eu ri e disse:
- Que música linda, com se chama?
-Se chama Nuvem Negra!
Ouvi a música umas dez vezes no mesmo dia, meu cansaço e mau humor foram pra o beleleu, sentei-me no chão na porta da cozinha enquanto alguém cozinhava, bati um papo legal e depois fui dormir, mas até hoje, para cada dia ruim e estressante, eu ouço essa música e sinto lá no fundo um tiquinho de dor, misturada com alivio, sensação esta que me remete ao que é bom e ruim, música esta que para cada incerteza de dias assim, será a alegria e a tristeza de se sentir saudade.