domingo, 28 de outubro de 2012

Como ganhar uma discussão em 2 segundos!


Numa manhã chata de um domingo de eleições e que pra piorar não tem Água, minha irmã me encaminha duas encomendas da pesada, meus dois sobrinhos Yan de 4 anos e Kauan de 9, as recomendações foram as seguintes: Cacau, o Kauan tem que estudar, por favor, não deixe-o assistir TV enquanto ele não terminar, e quanto ao Yan, tire ele de perto do Kauan, se não ele não para de perturbar o irmão dele, visto assim que os dois brigam por demais, assim eu fiz, coloquei o Kauan pra estudar na sala e fiquei brincando com o Yan no meu quarto. No menor dos descuidos o Yan foi até a sala e ficou sentado em cima dos livros do irmão, conseguintemente o Kauan grita: Tiaaaaaaaaaaa, o Yan tá me atrapalhando...
O Yan que não perde uma diz logo: Eu não fiz nada...
E eu com cara de idiota, fico sem saber o que fazer, reclamo com os dois e o Yan disse que ficaria quieto, mas que queria ficar sentado la na sala e que não iria perturbar o Kauan, eu  pra me livrar da chatice, deixei-o ficar quietinho brincando com um carrinho. Passadas algumas horas, Kauan se levanta e dá um tapa na cabeça do irmão e o mesmo revida, e assim começam a se estapear, eu louca, grito e coloco um em cada canto da sala, e assim começam as provocações, um apelidando o outro, e eu só ouvindo, em um certo momento o Kauan por ser mais velho ganha a discussão do pequenino, este por sua vez, fica calado por alguns segundo, creio eu, pensando no que iria falar pra ganhar essa disputa, vendo que a coisa tava preta e que discutindo não iria dar, ele se levanta e encarando o irmão firmemente e com os olhos zombeteiros diz: Ah, Kauan, você não vai estudar não hein? A nossa mamãe não vai gostar nada de saber que você não está estudando pra prova, cale a boca e vá ler seus livros vá, seu feio!
Caímos na gargalhada e o Kauan foi estudar! Diante disto, alguém poderia falar mais alguma coisa?

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O que acontece depois que a cortina se fecha...


Até meus nove anos de idade eu não conseguia chorar ao saber da morte de alguém, ou pelo menos sofrer ao ver alguém morrendo, eu até entendia, mas minha reação não era das mais dolorosas, pois bem, aos cinco anos vi minha avó morrendo bem na minha frente, consegui correr e até me agoniar, mas a vi morrendo e já sabia que não haveria o que fazer, não chorei, não esperneei; aos oito, vi meu irmão gêmeo ir no mesmo caminho, me doeu muito, mas ainda assim, meu esboço choroso foi pouco, muito pouco, para quem saiu do mesmo ventre daquele que morria, não era indiferença, mas talvez uma dureza infantil de não dar o braço a torcer para a morte- por incrível que pareça, eu pensava assim aos oito anos- e por mais incrível ainda que pareça, eu ainda faço a mesma coisa até hoje.
No ultimo domingo, fui fazer uma visita a alguém que eu evitara ver havia mais ou menos uns seis meses, eu até sabia das condições físicas dessa pessoa, e por talvez saber o quanto o mesmo já havia sido saudável eu quis preservar a mesma imagem em minha mente, uma imagem feliz de alguém que viveu muito bem, mas algo além de minha mãe, me dizia pra eu vê-lo, decidi ir, não hesitei em ir, quando cheguei desdobrei a ponto de não quere ir mesmo, e nunca me senti tão despreparada a visitar alguém. Quando entrei no quarto, o que vi foi algo extremamente doloroso, vi um homem pele e osso, respirando com dificuldades, pois acabara de ter um ataque e quase morre, o mesmo lutava para sentir o que lhe restava de ar, os olhos amarelados, as mão espalmadas e moles, eu via um homem quase sem vida, e que mesmo assim respondia a cada estimulo meu, o mesmo me reconheceu e escorria uma lágrima no canto do olho, não aguentei, chorei rios de lágrimas e, me doeu tanto, tanto, tanto... cheguei a não conseguir falar direito, na hora preferi mil vezes não vivenciar aquela situação, o médico acabara de sair de lá e assim deu as contas, disse que não havia mais jeito e que era melhor esperar lá mesmo, isto me levou a refletir muito, demorei por uns minutos no quarto de minha irmã, e decidi ir embora, antes de sair, voltei ao quarto do mesmo, chamei-o, ele virou os olhos sem mexer o corpo, me olhou numa tristeza só, não precisava de mais nenhuma palavra para esta pessoa que aqui escreve, chorei descontroladamente o caminho inteiro de volta, me perguntando mil vezes: O que se passa pela cabeça de alguém que tem plena certeza que nas próximas horas irá morrer? O fato é que passei a noite inteira pensando nisso, me perguntei também, o porquê de tanta dor; na manhã seguinte, fiz tudo normalmente, e a tarde a noticia, o mesmo homem acabara de morrer, as exatas 24 horas de minha visita, sem dores, sem agonias mais, sem som, sem nada... Ao saber do acontecido, me veio uma dor profunda e algumas lágrimas, poucas, mas com muita dor, encostei no namorado e lá fiquei protegida por mais ou menos trinta minutos, as lágrimas secaram e a dor diminuiu, me senti com 5 anos de idade de novo, endurecida e entregue a minha postura de antes, descobri que continuo a mesma, e que o cessar de lágrimas de antes e o de agora, se diferenciam apenas por questões de consciência, a mesma consciência que me destina a tudo que há de mais real em tudo que essa maldita da Morte propõe, e tenho que reconhecer que a mesma já me tirou e me deu muito, me tirou o doce de ser neutra quando criança e me deu o amargo de ser sensível e adulta o suficiente pra acreditar que nem tudo é e tem que ser como queremos, essa maldita existe sim, chega em qualquer vila, em qualquer momento, e se enfia direitinho aonde não deveria.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Para cada dor visivelmente inoportuna, um texto de Drummond...

CORAÇÃO SEGUNDO

De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiras, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, admitia fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação. Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite, e sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disso, minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no Canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vi um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que antes me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Felicitei-me pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas. Fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram apenas imotivadas, gratuitas. Meu coração nº2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão. Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios.Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado.

Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá-los. Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão.

Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa.

Agora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo e fechei o cavername. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? 
A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.
                                        
                                  Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Para um "Gato de óculos"



Para tudo um começo...
Para todo João há de haver uma Maria, assim como para toda Clara nem sempre haverá um Assis, mas que para cada idiota uma donzela sempre disposta a falar bobagens na madrugada.
Há exatos três meses, resmungava eu pelos cantos da minha enorme casa, regida pelo silêncio da madrugada que tanto me cheira bem e que me faz tão mal – sim, eu gosto do gosto de me sentir a última “Cacau Cola” da madrugada- pois bem, resmungava eu, não porque eu ame resmungar, mas porque eu me dou este direito as vezes, por ‘Ns’ motivos, e nesta mesma noite, o primeiro- me doía na alma ter que me sentir daquele jeito, detesto me sentir pra baixo, o segundo- eu nunca havia precisado tanto conversar com alguém, o terceiro e o mais doloroso- não achava nenhuma bodega aberta em meu bairro pra eu comprar uma Coca-cola para que eu me afogasse em meios a seus ingredientes cancerígenos que eu tanto adoro, senti-me um tanto pessimista neste dia, mas como já disse “me dou este direito as vezes”. Liguei o computador e decidi abrir todas as abas e redes sociais de todas as espécies, nada de bom me acontecia, tentei escrever, creio eu que saiu o texto mais louco que já escrevi, este foi quentinho pra o jornal, e já sem mais nada pra fazer, decidi dar a última olhada em meu Chat, avistei um “Gato de óculos”-sim, um gato fofinho de óculos- cliquei no mesmo e disse: Ei, ei, ei, ei... O mesmo respondeu; com toda e qualquer alegria que se pode ter numa madrugada, e esta mesma pessoa era e é, a única que me fazia rir em qualquer hora que nos falássemos, era sempre um papo agradável e as vezes até um tanto inocente, algo que nenhum dos dois tem, inocência, foram horas de trocas de informações, até que alguém nem sei porquê decide fazer um convite, o “Gato de óculos” aceita, e mais uma vez o destino se fez mais esperto do que imaginamos. Desde então, nada foi mais tão agradável de ver e sentir, nenhum filme foi mais o mesmo, assim como nenhuma caminhada a sós, foi tão bem acompanhada; há exatos três meses, nenhuma decisão foi tão conjunta e nenhuma amizade foi tão verdadeira, assim como, nenhuma DR foi tão bem-vinda e tão constante – descobri que isso faz bem também- as coisas em comuns, nunca foram tão incomuns, pois não é fácil lidar com alguém tão parecido com você, assim como é lindo ver alguém com o oposto de tua personalidade, e assim descobri que equilíbrio existe, e que tu podes rir dos medos que tu insistias em ter, pois eles só existiam enquanto a segurança estava de fora pra dentro e enquanto as mãos não estavam entrelaçadas, e que não há nada mais companheiro do que rir junto, sim, falo de risos largos e sem falsa moral. Há exatos três meses, ninguém sabia nem metade do que se escondia por trás de um sorriso alegre e de uma saúde inabalável, assim como ninguém jamais saberia que Nerds também podem amar e viver loucamente distantes de tudo que é fones e teclados, ninguém saberia que sofrer de lonjuras seria o que há de mais doloroso em estar sozinho, e que as “godices” são o que há de mais feliz em estar perto. Há exatos três meses, há tudo que jamais se poderia viver, simples assim, de comum e feliz acordo, de bobagem em bobagem e de mão dadas e que assim seja, sempre que pudermos.