segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quem está no comando do barco?



Assistindo a um programa na Tv aberta, me deparo com dois casos que aconteceram essa semana. O caso trata de dois meninos, um Brasileiro e um Boliviano, e ambos cheios de superação, a mesma que há mais ou menos 5 anos atrás me mostrou sua face, me mostrou a quê e para quê eu vim aqui para este mundo.  
Na ultima terça-feira 17, Gustavo de 10 anos, brincava com seus amigos em uma construção perto de casa, quando por um descuido caiu em um buraco de aproximadamente 5 metros de profundidade com 45 cm de largura, Gustavo ficou entalado com os braços pra cima, o trabalho dos bombeiros foi árduo, mas o garoto a todo o momento repetia que estava bem, como forma de acalmar a mãe que aos prantos pedia pra que tirassem seu filho logo daquele sufoco, após 5 horas de trabalho o garoto foi resgatado com algumas escoriações no braço, sereno e sem mais alterações, algo raro pra uma criança de 10 anos que passou muito tempo soterrado até o pescoço dentro de um buraco apertado e assustador. O outro caso foi em Barranquilla, ao norte da Colômbia, talvez o que mais me impressionou, Jeanpier de 3 anos que também brincava em uma obra, caiu em um bueiro da rede de esgoto do bairro que mora, foram 20 horas desaparecido, ele foi arrastado por 500 metros, engolindo água suja até ser encontrado por amigos se seus pais que ajudavam em sua busca, Jeanpier estava tão assustado, que agarrou firmemente na barra de concreto que dava pra ver em seus braços, o tamanho da força que fazia, assim vencia seus próprios limites, foi levado a um hospital com desidratação e intoxicação devido a água suja que engoliu, passa bem agora. A pergunta é a seguinte: O que faz o ser humano superar seus próprios limites? O que faz alguém encarar algo como se fosse a ultima chance? E quando isto vem de um ser tão pequeno, como uma criança? Coincidências? Não sei, mas me perguntei isto milhares de vezes. Os obstáculos enfrentados por muitos são o que há de mais intrigante para mim, logo eu que passei por provações de coragem e perseverança, lembrei imediatamente do momento em que me vi completamente sozinha comigo mesma, há muito mais que coragem para se enfrentar o medo, há de se ter força de vontade. Aos 17 anos me vi tendo que abandonar metade de minhas atividades por conta de um problema de saúde o qual tinha 97% de chances de cura, mas que dependia tanto de cuidados médicos como de um empurrãozinho do meu bom humor e força de vontade, em meio ao tratamento que fui submetida vi pessoas do meu lado esmorecendo e abandonando a luta em meio a guerra, vi altas e baixa estimas durante o percurso, aprendi a sorrir de verdade, pois ali em meio a todos que estão numa situação parecida com a tua, não dá pra haver fingimento, ou se estar bem ou não se estar; encontrei a mesma porcentagem que a minha, só que ao contrário, 97% de chances de cura eu tinha, o meu companheiro de quarto tinha 97% de chances de morrer em uma suposta operação, ambos tinham a mesma idade, ambos tinham o mesmo problema, ficamos amigos logo após a minha chegada, me internei um dia antes que ele, foram 8 meses de puro companheirismo, compartilhamos todas as peculiaridades de se estar vivo um dia após o outro, curtimos dos nossos penteados, rimos dos primeiros fios de cabelos crescendo, choramos horrores pós recaídas. O que se há em comum com alguém para alguns pode não ser quase nada, pode-se ser apenas um ponto de referencia para futuras aproximações, para mim é algo bem mais forte, ultrapassa qualquer entendimento, qualquer explicação, pessoas compatíveis com tua persona não podem ter vindo por acaso, enfim, a coincidência dos fatos, a compatibilidade dos problemas e das almas, tanto na minha história quanto na história dos dois meninos, se dá agora. Numa certa manhã, acordei com fortes dores no braço e abaixo do peito, tive uma recaída que quase me mata, duas horas depois, meu amigo teve uma parada cardio respiratória, e entrou em coma, fiquei 3 dias em profunda recuperação, e ele em constante crises, após o susto, voltei para o meu quarto e soube que o mesmo não havia voltado ainda e que seu estado não era dos melhores, sofri desesperadamente, no dia seguinte fui visita-lo na UTI, e vi que o que havia ali, era um ser com toda a vontade de viver, assim como muitas vezes o mesmo me relatou: “Eu não quero morrer”, este era o pedido de um menino, era a vontade de viver mesmo, vi da mesma maneira que Jeanpier se agarrava a barra de concreto enquanto ficou preso dentro daquele bueiro, a mesma vontade de viver de meu amigo, ele mantinha os pulso cerrados, as mãos fechadas como se tivesse fazendo toda uma força pra ficar ali, saí do quarto com uma angustia devastadora, pois pior do que não ter certeza sobre o fim ou o recomeço de sua vida ou da vida de alguém, é ter a certeza do fim da mesma. Diferente da História de Gustavo e Jeanpier, a minha não teve um final feliz, meu amigo morreu 20 dias depois, ele segurou-se numa barra de concreto por vinte dias, até não suportar mais a luta, até entregar os pontos, eu continuei lá, com uma cama vazia ao lado da minha, depois dele, se foram mais 4 pessoas, eu continuei lá, entre idas e vindas de humor, entre a alegria de progredir e a dor de perder pessoas queridas, foram mais 6 meses entre a casa e o hospital até eu sair de vez daquele ambiente, eu sai de la recuperada, novinha em folha, curada digo eu, fechei meus 97% de chances de cura, adicionei 3% de coragem a minha vida, meu amigo perdeu pra os 97% e fechou sua luta com 3% de força e alivio a seu sofrimento, se coincidências existem, eu não posso afirmar, mas se as mesmas não forem presentes, “quem comandará o barco dos acontecimentos?’’ O que dirá do tempo que é dado pra que cada pessoa possa encontrar o que se espera no tempo exato, ou até mesmo no tempo errado, já que tempo é tudo? 

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