Assistindo a um
programa na Tv aberta, me deparo com dois casos que aconteceram essa semana. O
caso trata de dois meninos, um Brasileiro e um Boliviano, e ambos cheios de
superação, a mesma que há mais ou menos 5 anos atrás me mostrou sua face, me
mostrou a quê e para quê eu vim aqui para este mundo.
Na ultima
terça-feira 17, Gustavo de 10 anos, brincava com seus amigos em uma construção
perto de casa, quando por um descuido caiu em um buraco de aproximadamente 5
metros de profundidade com 45 cm de largura, Gustavo ficou entalado com os
braços pra cima, o trabalho dos bombeiros foi árduo, mas o garoto a todo o
momento repetia que estava bem, como forma de acalmar a mãe que aos prantos
pedia pra que tirassem seu filho logo daquele sufoco, após 5 horas de trabalho
o garoto foi resgatado com algumas escoriações no braço, sereno e sem mais
alterações, algo raro pra uma criança de 10 anos que passou muito tempo
soterrado até o pescoço dentro de um buraco apertado e assustador. O outro caso
foi em Barranquilla, ao norte da Colômbia, talvez o que mais me impressionou, Jeanpier
de 3 anos que também brincava em uma obra, caiu em um bueiro da rede de esgoto
do bairro que mora, foram 20 horas desaparecido, ele foi arrastado por 500
metros, engolindo água suja até ser encontrado por amigos se seus pais que
ajudavam em sua busca, Jeanpier estava tão assustado, que agarrou firmemente na
barra de concreto que dava pra ver em seus braços, o tamanho da força que
fazia, assim vencia seus próprios limites, foi levado a um hospital com
desidratação e intoxicação devido a água suja que engoliu, passa bem agora. A
pergunta é a seguinte: O que faz o ser humano superar seus próprios limites? O
que faz alguém encarar algo como se fosse a ultima chance? E quando isto vem de
um ser tão pequeno, como uma criança? Coincidências? Não sei, mas me perguntei
isto milhares de vezes. Os obstáculos enfrentados por muitos são o que há de
mais intrigante para mim, logo eu que passei por provações de coragem e
perseverança, lembrei imediatamente do momento em que me vi completamente
sozinha comigo mesma, há muito mais que coragem para se enfrentar o medo, há de
se ter força de vontade. Aos 17 anos me vi tendo que abandonar metade de minhas
atividades por conta de um problema de saúde o qual tinha 97% de chances de
cura, mas que dependia tanto de cuidados médicos como de um empurrãozinho do
meu bom humor e força de vontade, em meio ao tratamento que fui submetida vi
pessoas do meu lado esmorecendo e abandonando a luta em meio a guerra, vi altas
e baixa estimas durante o percurso, aprendi a sorrir de verdade, pois ali em
meio a todos que estão numa situação parecida com a tua, não dá pra haver
fingimento, ou se estar bem ou não se estar; encontrei a mesma porcentagem que
a minha, só que ao contrário, 97% de chances de cura eu tinha, o meu companheiro
de quarto tinha 97% de chances de morrer em uma suposta operação, ambos tinham
a mesma idade, ambos tinham o mesmo problema, ficamos amigos logo após a minha
chegada, me internei um dia antes que ele, foram 8 meses de puro
companheirismo, compartilhamos todas as peculiaridades de se estar vivo um dia
após o outro, curtimos dos nossos penteados, rimos dos primeiros fios de
cabelos crescendo, choramos horrores pós recaídas. O que se há em comum com
alguém para alguns pode não ser quase nada, pode-se ser apenas um ponto de
referencia para futuras aproximações, para mim é algo bem mais forte,
ultrapassa qualquer entendimento, qualquer explicação, pessoas compatíveis com
tua persona não podem ter vindo por acaso, enfim, a coincidência dos fatos, a compatibilidade
dos problemas e das almas, tanto na minha história quanto na história dos dois
meninos, se dá agora. Numa certa manhã, acordei com fortes dores no braço e
abaixo do peito, tive uma recaída que quase me mata, duas horas depois, meu
amigo teve uma parada cardio respiratória, e entrou em coma, fiquei 3 dias em
profunda recuperação, e ele em constante crises, após o susto, voltei para o
meu quarto e soube que o mesmo não havia voltado ainda e que seu estado não era
dos melhores, sofri desesperadamente, no dia seguinte fui visita-lo na UTI, e
vi que o que havia ali, era um ser com toda a vontade de viver, assim como muitas
vezes o mesmo me relatou: “Eu não quero morrer”, este era o pedido de um
menino, era a vontade de viver mesmo, vi da mesma maneira que Jeanpier se
agarrava a barra de concreto enquanto ficou preso dentro daquele bueiro, a
mesma vontade de viver de meu amigo, ele mantinha os pulso cerrados, as mãos
fechadas como se tivesse fazendo toda uma força pra ficar ali, saí do quarto
com uma angustia devastadora, pois pior do que não ter certeza sobre o fim ou o
recomeço de sua vida ou da vida de alguém, é ter a certeza do fim da mesma.
Diferente da História de Gustavo e Jeanpier, a minha não teve um final feliz, meu
amigo morreu 20 dias depois, ele segurou-se numa barra de concreto por vinte
dias, até não suportar mais a luta, até entregar os pontos, eu continuei lá,
com uma cama vazia ao lado da minha, depois dele, se foram mais 4 pessoas, eu
continuei lá, entre idas e vindas de humor, entre a alegria de progredir e a
dor de perder pessoas queridas, foram mais 6 meses entre a casa e o hospital
até eu sair de vez daquele ambiente, eu sai de la recuperada, novinha em folha,
curada digo eu, fechei meus 97% de chances de cura, adicionei 3% de coragem a
minha vida, meu amigo perdeu pra os 97% e fechou sua luta com 3% de força e
alivio a seu sofrimento, se coincidências existem, eu não posso afirmar, mas se
as mesmas não forem presentes, “quem comandará o barco dos acontecimentos?’’ O
que dirá do tempo que é dado pra que cada pessoa possa encontrar o que se
espera no tempo exato, ou até mesmo no tempo errado, já que tempo é tudo?
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