Até meus nove anos de idade eu não
conseguia chorar ao saber da morte de alguém, ou pelo menos sofrer ao ver
alguém morrendo, eu até entendia, mas minha reação não era das mais dolorosas,
pois bem, aos cinco anos vi minha avó morrendo bem na minha frente, consegui
correr e até me agoniar, mas a vi morrendo e já sabia que não haveria o que
fazer, não chorei, não esperneei; aos oito, vi meu irmão gêmeo ir no mesmo
caminho, me doeu muito, mas ainda assim, meu esboço choroso foi pouco, muito
pouco, para quem saiu do mesmo ventre daquele que morria, não era indiferença,
mas talvez uma dureza infantil de não dar o braço a torcer para a morte- por
incrível que pareça, eu pensava assim aos oito anos- e por mais incrível ainda
que pareça, eu ainda faço a mesma coisa até hoje.
No ultimo domingo, fui fazer uma
visita a alguém que eu evitara ver havia mais ou menos uns seis meses, eu até
sabia das condições físicas dessa pessoa, e por talvez saber o quanto o mesmo
já havia sido saudável eu quis preservar a mesma imagem em minha mente, uma
imagem feliz de alguém que viveu muito bem, mas algo além de minha mãe, me
dizia pra eu vê-lo, decidi ir, não hesitei em ir, quando cheguei desdobrei a
ponto de não quere ir mesmo, e nunca me senti tão despreparada a visitar
alguém. Quando entrei no quarto, o que vi foi algo extremamente doloroso, vi um
homem pele e osso, respirando com dificuldades, pois acabara de ter um ataque e
quase morre, o mesmo lutava para sentir o que lhe restava de ar, os olhos
amarelados, as mão espalmadas e moles, eu via um homem quase sem vida, e que
mesmo assim respondia a cada estimulo meu, o mesmo me reconheceu e escorria uma
lágrima no canto do olho, não aguentei, chorei rios de lágrimas e, me doeu
tanto, tanto, tanto... cheguei a não conseguir falar direito, na hora preferi
mil vezes não vivenciar aquela situação, o médico acabara de sair de lá e assim
deu as contas, disse que não havia mais jeito e que era melhor esperar lá
mesmo, isto me levou a refletir muito, demorei por uns minutos no quarto de
minha irmã, e decidi ir embora, antes de sair, voltei ao quarto do mesmo,
chamei-o, ele virou os olhos sem mexer o corpo, me olhou numa tristeza só, não
precisava de mais nenhuma palavra para esta pessoa que aqui escreve, chorei
descontroladamente o caminho inteiro de volta, me perguntando mil vezes: O que
se passa pela cabeça de alguém que tem plena certeza que nas próximas horas irá
morrer? O fato é que passei a noite inteira pensando nisso, me perguntei
também, o porquê de tanta dor; na manhã seguinte, fiz tudo normalmente, e a
tarde a noticia, o mesmo homem acabara de morrer, as exatas 24 horas de minha
visita, sem dores, sem agonias mais, sem som, sem nada... Ao saber do
acontecido, me veio uma dor profunda e algumas lágrimas, poucas, mas com muita
dor, encostei no namorado e lá fiquei protegida por mais ou menos trinta
minutos, as lágrimas secaram e a dor diminuiu, me senti com 5 anos de idade de
novo, endurecida e entregue a minha postura de antes, descobri que continuo a
mesma, e que o cessar de lágrimas de antes e o de agora, se diferenciam apenas
por questões de consciência, a mesma consciência que me destina a tudo que há
de mais real em tudo que essa maldita da Morte propõe, e tenho que reconhecer
que a mesma já me tirou e me deu muito, me tirou o doce de ser neutra quando
criança e me deu o amargo de ser sensível e adulta o suficiente pra acreditar
que nem tudo é e tem que ser como queremos, essa maldita existe sim, chega em
qualquer vila, em qualquer momento, e se enfia direitinho aonde não deveria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário