Há mais ou menos vinte dias, eu
me tornei uma pessoa especial, digo isso, pois de uma forma muito encorajadora,
certas coisas vieram a mim e se mostraram de inicio em forma de dificuldades,
de empecilho, mas agora vejo que nada mais nada menos era pra me mostrar, que
nem tudo está perdido, basta olhar em volta e achar a perfeição de cada
coisinha.
Como já disse, há vinte dias eu
me tornei especial, minha mãe fraturou o quinto metatarso, e isto a está
rendendo dias em casa, com um pé no gesso, tendo que andar com desconfortáveis
muletas, as tais que ela tanto temia, mas tem que se usar. Minha mãe na
primeira semana, quase não saiu de casa, tivemos que ir a uma consulta e antes
de chegarmos ao hospital, decidimos parar para comprar umas coisinhas que
precisávamos, ao descer do carro, nos deparamos com uma calçada a qual não
havia uma rampa de acesso para cadeirantes, ou pessoas com muletas, enfim, para
alguém com alguma necessidade especial, tive que deixá-la no carro e fazer o
que tínhamos que fazer sozinha. Esta foi a primeira situação constrangedora a
qual passei e me doeu ver minha mãe passando, e isto me fez refletir muito
sobre um ditado, “Só sabendo e sentimos certas coisas, quando passamos pela
mesma”.
No dia seguinte, passo no
cruzamento da Avenida Frei Serafim com Miguel Rosa, e vejo um rapaz numa
cadeira de rodas sem poder subir na calçada, o mesmo num desespero sem fim,
pois os carros passavam raspando em sua cadeira, o constrangimento era tanto,
todos a olhar e ninguém pra ajudar, eu num ato louco, atravesso a avenida,
abandono o carro no meio do trânsito e o pego quase no colo, e consigo de uma
forma que nem eu mesma sei, coloca-lo em cima da calçada alta, o menino que me
parecia tão constrangido, mais que agradecido, abaixou a cabeça e quase me
pedindo desculpas saiu dizendo “Esse trânsito é meio louco, não é, moça?
Obrigada!” E assim saiu e meu coração apertado ficou, pois ali, eu o ajudei,
mas, e depois? Quantas calçadas altas ele enfrentaria sem se quer a ajuda de
alguém? Quantos ainda iriam ser espectadores de tamanha novela da vida real? Eu
saí com as pernas tremendo, os braços cansados e a descrença numa sociedade que
não tem senso de solidariedade. Passei o dia cansada, mas cansada de pensar
naquela cena, poderia ser eu, poderia ser qualquer pessoa na pele daquele
menino, e poderia ser a minha mãe que com muletas caminha agora.
No dia seguinte, vejo uma
professora desesperada atrás de uma professora de dança para um trabalho com
adolescentes especiais, a mesma havia ligado pra dezenas de pessoas, os mesmos
ao saber qual seria o publico alvo, dispensavam. Ela cansou de ligar e respirou
fundo, eu ri e perguntei, “Você precisa de uma professora de dança?”, ela disse
que sim, eu sem pensar, disse “Pois eis aqui”, ela sem entender me perguntou se
eu não iria nem querer saber quem são, como são os alunos, e se eu teria tanta
disposição e paciência para tais, eu disse que só queria saber os dias, e que
os alunos nós professores não escolhemos, ela me deu o horário e assim eu estou
cá, a nascer de novo, e a me tornar especial há duas semanas.
Meus alunos são considerados,
crianças Q. Is baixos, com dificuldades na fala, retardação nos movimentos, são
até considerados incapazes para certas atividades, mas, não para mim, eu tenho
um diálogo constante com os mesmos, e vejo em cada palavra soletrada a vontade
que muitos que se dizem “normais”, não têm, eu tenho oito alunos com idades de
13 a 20 anos, e eu digo que renasci e me tornei especial vinte anos, cada volta
na cidade que dou até chegar neste lugar, eu volto renovada, pois tenho a
certeza de que cada abraço recebido de cada um deles ao me verem chegar, é uma
certeza, de que tudo vale a pena, e não há dinheiro, não há recompensa maior do
que fazer a diferença entre tantas pessoas diferentes de cada ser que se diz
humanos. Descobri que há tanto a ser
feito, que há tanto a ser contribuído, eu tenho duas pernas saudáveis, dois pés
feios de bailarina, mas que me levam ao impossível se o impossível for ajudar.
As dificuldades são enormes, não há rampas, não há solidariedade suficiente, e
não há aceitação para com essas pessoas, que são iguais a nós, só que, um tanto
especiais, mas a cada um desses meninos e meninas que eu vejo três vezes por
semana, que aqui há muito amor, e muita vontade de que um dia, os mesmos possam
receber coisas tão especiais quantos eles deste mundo nada normal e destas
pessoas nada saudáveis.
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