domingo, 5 de maio de 2013

E QUE SEJA JUSTA TODA FORMA DE AMOR!




Há mais ou menos vinte dias, eu me tornei uma pessoa especial, digo isso, pois de uma forma muito encorajadora, certas coisas vieram a mim e se mostraram de inicio em forma de dificuldades, de empecilho, mas agora vejo que nada mais nada menos era pra me mostrar, que nem tudo está perdido, basta olhar em volta e achar a perfeição de cada coisinha.
Como já disse, há vinte dias eu me tornei especial, minha mãe fraturou o quinto metatarso, e isto a está rendendo dias em casa, com um pé no gesso, tendo que andar com desconfortáveis muletas, as tais que ela tanto temia, mas tem que se usar. Minha mãe na primeira semana, quase não saiu de casa, tivemos que ir a uma consulta e antes de chegarmos ao hospital, decidimos parar para comprar umas coisinhas que precisávamos, ao descer do carro, nos deparamos com uma calçada a qual não havia uma rampa de acesso para cadeirantes, ou pessoas com muletas, enfim, para alguém com alguma necessidade especial, tive que deixá-la no carro e fazer o que tínhamos que fazer sozinha. Esta foi a primeira situação constrangedora a qual passei e me doeu ver minha mãe passando, e isto me fez refletir muito sobre um ditado, “Só sabendo e sentimos certas coisas, quando passamos pela mesma”.
No dia seguinte, passo no cruzamento da Avenida Frei Serafim com Miguel Rosa, e vejo um rapaz numa cadeira de rodas sem poder subir na calçada, o mesmo num desespero sem fim, pois os carros passavam raspando em sua cadeira, o constrangimento era tanto, todos a olhar e ninguém pra ajudar, eu num ato louco, atravesso a avenida, abandono o carro no meio do trânsito e o pego quase no colo, e consigo de uma forma que nem eu mesma sei, coloca-lo em cima da calçada alta, o menino que me parecia tão constrangido, mais que agradecido, abaixou a cabeça e quase me pedindo desculpas saiu dizendo “Esse trânsito é meio louco, não é, moça? Obrigada!” E assim saiu e meu coração apertado ficou, pois ali, eu o ajudei, mas, e depois? Quantas calçadas altas ele enfrentaria sem se quer a ajuda de alguém? Quantos ainda iriam ser espectadores de tamanha novela da vida real? Eu saí com as pernas tremendo, os braços cansados e a descrença numa sociedade que não tem senso de solidariedade. Passei o dia cansada, mas cansada de pensar naquela cena, poderia ser eu, poderia ser qualquer pessoa na pele daquele menino, e poderia ser a minha mãe que com muletas caminha agora.
No dia seguinte, vejo uma professora desesperada atrás de uma professora de dança para um trabalho com adolescentes especiais, a mesma havia ligado pra dezenas de pessoas, os mesmos ao saber qual seria o publico alvo, dispensavam. Ela cansou de ligar e respirou fundo, eu ri e perguntei, “Você precisa de uma professora de dança?”, ela disse que sim, eu sem pensar, disse “Pois eis aqui”, ela sem entender me perguntou se eu não iria nem querer saber quem são, como são os alunos, e se eu teria tanta disposição e paciência para tais, eu disse que só queria saber os dias, e que os alunos nós professores não escolhemos, ela me deu o horário e assim eu estou cá, a nascer de novo, e a me tornar especial há duas semanas.
Meus alunos são considerados, crianças Q. Is baixos, com dificuldades na fala, retardação nos movimentos, são até considerados incapazes para certas atividades, mas, não para mim, eu tenho um diálogo constante com os mesmos, e vejo em cada palavra soletrada a vontade que muitos que se dizem “normais”, não têm, eu tenho oito alunos com idades de 13 a 20 anos, e eu digo que renasci e me tornei especial vinte anos, cada volta na cidade que dou até chegar neste lugar, eu volto renovada, pois tenho a certeza de que cada abraço recebido de cada um deles ao me verem chegar, é uma certeza, de que tudo vale a pena, e não há dinheiro, não há recompensa maior do que fazer a diferença entre tantas pessoas diferentes de cada ser que se diz humanos.  Descobri que há tanto a ser feito, que há tanto a ser contribuído, eu tenho duas pernas saudáveis, dois pés feios de bailarina, mas que me levam ao impossível se o impossível for ajudar. As dificuldades são enormes, não há rampas, não há solidariedade suficiente, e não há aceitação para com essas pessoas, que são iguais a nós, só que, um tanto especiais, mas a cada um desses meninos e meninas que eu vejo três vezes por semana, que aqui há muito amor, e muita vontade de que um dia, os mesmos possam receber coisas tão especiais quantos eles deste mundo nada normal e destas pessoas nada saudáveis.

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