1Eu plantei um jardim, de início as sementes que cultivei, eram de violetas, jasmins, rosas, e as minhas preferidas, as orquídeas. Ao passar do tempo, elas foram crescendo, as violetas eram violetas, os jasmins, eram jasmins, as rosas eram as mais lindas rosas, e as minhas preferidas, as Orquídeas não eram apenas as Orquídeas, elas eram venenosas.
Dentro de meu desespero interior, me preocupei logo em saber o que ocorria com as meninas dos meus olhos. Corri por entre todos os pensamentos malditos que uma moça como eu poderia ter, procurei dentro de meu ser, de nada adiantou, nenhum especialista, nenhuma resposta, nenhuma. E quando achava que nada me responderia, me veio à idéia de olhar o rótulo das sementes que havia comprado, e ali havia quase todas as respostas.
“Eu havia comprado as sementinhas numa loja chamada “vida”, e ao trocar todas as experiências na compra dessas sementes, não percebi que a lojinha, estava apenas começando, e que no “modo de usar”, havia escrito "Todo cuidado é pouco, e você pode se machucar ou machucá-las”, mas nesse manual, não havia ao certo o que fazer, foi então que percebi que o modo de usar, era apenas um conselho, e de resto tudo ficaria por minha conta.
Eu ri, ri muito, e fui calcular os prejuízos e os benefícios desse jardim, e tudo ficou num emaranhar de cálculos incertos e que mesmo eu que sou boa de conta me confundi, e aí lascou! Mas pensei bem, olhei ao redor, olhei as violetas, os jasmins, as rosas e as perigosas orquídeas, e tudo me veio com um raio, toda a retrospectiva de uma vida, todos os sonhos, as escolhas, as dúvidas, os amores, os que foram e os que ficaram. E lembrei-me do que um certo jardineiro me falou. Como eu pude esquecer desse jardineiro? E comecei a relembrar.
As violetas eram o começo de tudo, eram o nascer de uma vida, assim como essa planta, foi o começo de minha vida, nascemos sobrepostas às razões e aos delicados cuidados de nossas folhas, as folhas no meu caso, eram os fortes braços de minha querida mãe, eu também assim como as violetas precisei de um pouco de pressão pra fincar minhas raízes a terra. O jasmim foi o rastro que ficou de toda uma maravilhosa infância, o doce dos sorrisos infantis, dos carinhos de pai de mãe e de irmãos, e o cheiro de inocência que só os jasmins e as crianças exalam. Até então, tudo em minha vida transcorreu regido por forças externas, cuidados familiares, normas sociais que aprendemos desde cedo, o obrigado, o “licença, por favor”, nunca desrespeite os mais velhos e os blá, blá, blá, que nos impõem quando crianças. O que acontece é, que para virarmos gente mais ou menos grande, precisamos desabrochar como rosas, sim queridos, como rosas. Percebi que por um bom período de minha adolescência, o que se viu foi o desabrochar intenso e bem particular de uma menina, e assim como as rosas, que crescem fortes e de pétalas bem delicadas, foi-se minha transição entre adolescência e a fase adulta. As rosas, são delicadas e fortes, conseguem encantar e murchar rapidamente se não bem tratadas, se adoradas, conseguimos resistência e florescemos todos os dias, se desprezadas morremos, decaímos e quase nunca levantamos, e por não permanecer Rosa, tornei-me Orquídea e ali estacionei, até que aparecesse aquele que como o homem do cavalo branco, me deu o beijo do acordar, e apaixonado por flores, me regou e me ensinou a cuidar mais desse jardim, e foi com esse jardineiro fiel, que me despetalei, e que ganhei algo muito mais que beleza, ganhei sabedoria, pra soltar o veneno que toda Orquídea deve ter, o mesmo me ensinou a cantar e ser diferente das outras, e a não pensar que tudo eram apenas flores (risos), mas que nesse jardim, poderia sim, se fazer festas constantes e travessuras que só flores e jardineiros podem fazer. E foi assim que descobri o que me perturbava, o erro no inicio dessa historinha, não foi com a semente, mas em como se deu o cultivo das flores, o jardineiro me disse com toda sua sabedoria antes de ir embora, ao ver o jardim pronto e com todas as flores da vida firmes: Olha moça! Aqui está teu jardim, florido, cheio de vida, claro que algumas pétalas de tuas flores foram arrancadas, outras caíram por si só, esse teu jardim foi trabalhoso, tu chorastes tanto ao ver tudo indo por água a baixo, mas eis aqui o que tu construíste minha querida Orquídea, tu nascestes frágil como violetas, cresceste lindamente como jasmins, desabrochou e murchou como rosas, e decidiu reviver como Orquídeas, e não te preocupa com o veneno que tu e tuas Orquídeas viestes a adquirir, ele é a proteção que tu tens para com esse jardim, que ainda florescerá mais e mais vezes, quanto às Orquídeas elas são teu reflexo, lembra-se que a loja que tu compraste as sementes chamava-se “vida”? Essa loja era a tua vida e o modo de usar ninguém mais poderia inventar, porque a força de cuidar e resolver os problemas de nossos jardins está em nós mesmos, mas que de vez em quando, precisamos sim, de um jardineiro extra para administrar melhor as flores que ali nascem, eis aqui o meu papel, te ajudei no que era preciso e você foi uma boa aluna, mas não esqueças de pôr um nome em teu jardim”.
E assim foi-se meu querido jardineiro, me deixando um legado enorme de aprendizados, mas algo me enfocava ainda, que nome se dá a um jardim como esse? Foi nesse dilema que me veio o nome “Vida”, meu jardim se chama Vida. E sentada olhando o rio que corta minha cidade, lembro-me todos os dias de como foi trabalhoso cuidar desse jardim, e quão gratificante é lembrar-me disso tudo. A luta com o jardim continua, pois como ele se chama Vida, o mais normal é que ele permaneça vivo, assim como a dona dele, o Jardineiro aparece de vez em quando, me dá uma dica ou outra e depois como todas as vezes, ele vai embora, pra que eu sozinha decida o que fazer, e minhas flores murcham quando isso acontece, mas regada com bons sentimentos e esperanças, elas revivem pra um outro ciclo. E assim recomendo, protejam seus jardins, trabalhem para que tudo corra bem, e se nada adiantar procure um jardineiro, é válido, e é gratificante. Mas lembrem-se: Tu, somente tu, serás responsável pelo cultivo deste jardim.
Hum, gostei! Ótimo texto! Lindo diga de passagem! Adorei a parte do ciclo de nossas vidas e principalmente o desabrochar das rosas! Enquanto as Orquídeas? é tudo verdade! Seu(nosso) veneno e a proteção que temos!
ResponderExcluirBianca, obrigada pela visita, e que bom que você gostou, fico feliz, todos nós temos um jardim pra cuidar, e cada um pode decidir como fazê-lo, é isso aí, obrigadão e passe mais vezes por aqui, abração!
ResponderExcluiramei; amo e sempre amarei! lindo texto parabéns nêga!!!
ResponderExcluirHaaaaa até que em fim né! Obrigada vazoooo, e passe sempre por aqui, e muito agradecida pelo compartilhamento no FB, bjs e saudades de vc!
ResponderExcluirGostei demais! Sou do tipo de pessoa que fica de queixo caído com as mais singelas comparações que a nossa vida pode ter perante as coisas simples do dia-a-dia, tudo tá ligado, é só olhar com a sensibilidade que lhe cabe. Texto show!Podem exstir milhões de jardineiros por aí, mas jardineiro fiel, só um! E é esse que faz a diferença. O bom, é que ele sempre dá um jeito de ver como anda o jardim da gente.
ResponderExcluirEra o que estavamos falando a pouco, essa Letícia é muito esperta, consegue pegar tudo muito rápido, é isso mesmo, ainda bem que o jardineiro sempre volta, senão, o que seria da Orquídea? rsrsrs..... bjs meu bem e Obrigadaaaa!
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