Já percebi que as melhores
atrocidades que se faz ao coração, são feitas e escritas numa droga de domingo,
os melhores textos, as melhores músicas e até as melhores declarações de amor no
pino do sol de um passeio pelo zoológico, olhando a ferocidade do leão dentro
duma jaula, ou melhor, dentro dum quarto regido pelo vento quente de um
ventilador. Hoje acordei tarde, e quase não levanto, pois hoje é domingo, e eu
prefiro dormir o dia inteiro só pra não ver o dia chato de domingo passar. Não
adiantou muito, ouvi um programa de rádio de um amigo que falava de Paulinho da
Viola – Lindo -, mas a atrocidade maior e também a melhor que fiz, foi achar um
documentário do meu bom e velho Cartola, gravado na Rádio Eldorado de São Paulo
em 1979, onde o mesmo fala de alguma de suas principais músicas, de suas
parcerias e um pouco de sua vida. Ai meu Deus, como é bom sofrer assim,
sofrimento regido por um bom samba não tem preço, é como um soco no estomago “com
efeito” contrário, é sinestésico, é como “caminhos tortuosos entre flores e
espinhos” assim como o próprio diz. Isto é uma atrocidade a meu pobre e pequeno
ser, é uma atrocidade aos meus sentimentos que são muitos e nada calados. Mas é
um empurrão descarado ao que se passa lentamente, o diabo do Domingo, é uma
enganação boa, a qual me esconde de toda a responsabilidade de ler textos que
falam de sociedade, literaturas e paradigmas, tudo poderia ser simples assim
como o Cartola descreveu, poderia ser apenas “Correr e olhar o céu” e esperar o
“sol trazer o bom dia”,poderia ser o Samba no Coreto as 19h com o namorado e os
amigos a dançar gafieira, mas não, hoje é o velho domingo, com samba de
Angenor,ou Argenor, textos de Teoria Literária, sem cerveja na laje e sem o sabor de ser
do morro, e assim, com todo meu “dissabor”, eu vou fingindo estar “num festival
de alegria que me põe a imaginar”, Oh my god, “não sei se devo rir ou chorar”.
Bom dia a
todos e vamos sambar!
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